A virose das arrumações

A virose das arrumações

Há conceitos que me fazem muita confusão , tais como a expressão “Já bebi bem mais que o suficiente, é melhor parar por aqui” ou ver o Fernando Mendes vender iogurtes na nova campanha da Danone, tendo em conta que não há nenhum com sabor a toucinho ou queijo da serra. Outra coisa que me faz imensa espécie é isso do “bichinho das arrumações” .

Não sei se a infecção tem origem viral ou bacteriana, mas não compreendo como é que a indústria farmacêutica teima em ignorar este flagelo arrepiante. Presumindo que a perturbação é do foro mental, certamente que a psicologia tem uma explicação, mas, como de costume , as explicações da psicologia acabam sempre por ir dar ao filho que quer matar o pai e casar com a mãe, ou vice-versa, tal como o mordomo é sempre o culpado nos filmes. Nunca foge muito disto.

Constatei em inúmeras conversas e através da técnica antropológica da observação (pouco) participante que há malta que sente uma estranha pulsão, um dínamo interno que os impele a arrumar a casa, só porque sim, uma espécie de hobby. Se é que também tenho dentro de mim um mecanismo desses, então o coitado está sempre com falta de pilha.

A mesma observação participante permitiu-me detectar um padrão de comportamento transversal a vários agregados familiares. Sucede que o homem da casa pode estar em pé, sem fazer rigorosamente nada, olhando despreocupadamente para o tecto durante 15 minutos. Ali, na dele, sossegadinho. No preciso instante que tem a infeliz ideia de se sentar para descansar as pernas, a esposa sai a correr do outro lado da casa e salta sobre ele como um felino, perguntando-lhe com maus modos como é que é possível sentar-se quando está tanta coisa por arrumar em casa, geralmente iniciando o salmo pelo versículo “A minha mãe bem me avisou!!”.

Pasmo com perplexidade ao ouvir coisas como ”fico agoniada se deixar um prato de louça por lavar” ou “não consigo sair de casa sem fazer a cama”. Percebi que tenho uma elevada tolerância à exposição a estas coisas, o meu corpo desenvolveu poderosos anticorpos,  aguenta bem a visão de uma cama de fazer, sem efeitos secundários de maior. Aguenta aliás, mesmo muito bem, que nem um valente. Isto até merecia ser investigado em laboratório: não me importo, desde que não se ponham com ideias parvas com respeito à introdução de sondas.

Na verdade, poucas pessoas teriam tanto jeito como eu para ter uma empregada. É mesmo mal empregue que eu não tenha uma empregada. Se eu tivesse uma empregada, além de me descascar as uvas – como a boa vida da funcionária da Carolina Patrocínio- ainda obrigaria a senhora a comê-las por mim, só para não ter o trabalho.

Convenhamos que no que diz respeito à lida da casa tenho mais de ogre da caverna do que propriamente fada do lar. A única planta da casa sofre de raquitismo crónico, passa mais tempo sem ver água que o Jorge Palma. Aventurei-me uma vez a experimentar isso da cozinha de fusão. Até não correu mal, apesar de não ter refinado o conceito ao nível da Sónia Brazão, que o aplicou ao resto do imóvel. Os meus dotes culinários são escassos, a principal diferença entre a despensa e um daqueles bunkers americanos preparados para o holocausto nuclear é que a minha despensa tem mais enlatados.

A minha mãe sempre achou que sou um calão desarrumado. Eu bem lhe tento explicar, com toda a paciência do mundo,  que o cenário de caos é propositado, pois potencia a veia artística, mas nada. Não vale a pena, falta-lhe a sensibilidade e agudeza de espírito para estas coisas. Como fazer perceber o jorro criador visceral que brota de uma pilha de louça por lavar?  Contemplar um cesto carregado de roupa por passar tem em mim o mesmo efeito de um passeio pelas margens do Sena para os impressionistas: inspira-me.