Adeus, Querido Líder

Adeus, Querido Líder

 

Não é para me gabar, mas posso dizer que à conta da minha sobrinha abordo com alguma confiança temas complexos como o mundo de tratamentos capilares disponível na maleta da Nancy Penteados ou até mesmo a panóplia de poderes das Winx. Estou por dentro do meio, digamos assim. Sucede que por estes dias, estava eu meio a dormir a fazer o zapping entre anúncios  para a pequenada, eis senão quando por entre a Barbie optometrista e as poses de rameira da Popota me aparecem uns bonecos novos, assim meio achinesados.

 

 

“- Epá, ainda não conheço estes, será um novo Dragonball…?” – pensei para comigo. Achei aquilo estranho, chamou-me a atenção o facto de que os gajos não paravam de chorar, pareciam aqueles Nenucos recém-nascidos a quem tinham tirado a chucha. Lá resolvi abrir a pestana para tentar perceber o que se passava: acontece que Kim Jong-Il, o governante da Coreia do Norte, tinha partido desta para a sua Gamebox reservada no Inferno.

 

Afinal até era aplicável a parte dos desenhos animados, pois a biografia de Kim Jong-Il, o “Querido Líder”, reza que quando ele nasceu se formaram no céu dois arco-íris e nasceu uma nova estrela, e isso é material próprio do canal Panda. Caramba, o que chorava aquela gente, batendo à bruta no peito e no chão. Se estavam assim por causa disto, imagino o que devem ter berrado quando comeram os 7-0 de Portugal.

 

 

Passaram uma série de entrevistas de rua, numa das quais uma senhora partilhava uma epifania maravilhosa, na qual ainda há bem pouco tempo tinha visto o “Querido Líder” descer numa escada rolante. Por acaso também gosto deste género de coisas, tenho aliás uma série de vídeos com o nosso Primeiro-Ministro a andar de elevador.

 

 

Na Coreia do Norte pratica-se um culto da personalidade à moda antiga, ultrapassado apenas pelas conferências de imprensa de José Mourinho. Tudo começou com Kim Il-Sung, chamado “Presidente Eterno” e “Estrela Guia do Século XXI”. Seguiu-se o filho Kim Jong-Il que, apesar de tudo, apenas aceitava ser tratado por “Querido Líder” e “Pai Nosso”, para não acharem que tinha a mania das grandezas.

 

 

O filho mais velho do “Querido Líder”, Kim Jong-nam, foi preterido pelo pai na corrida à sucessão porque o achava muito efeminado. Kim Jong-il, uma espécie de Karl Lagerfeld anão e sem purpurinas, falava do assunto com o conhecimento de causa de quem usa óculos de gaja e sapatos de tacão alto.

 

 

A questão fica no ar, será que o sucessor designado, Kim Jong-un, está à altura do seu pai? Pobre alma, deve sentir a mesma pressão que o filho de José Castelo Branco, não deve ser nada fácil. Ainda assim, parece que Kim Jong-Un é já uma espécie de ícone da moda, pois os jovens de Pyongyang fazem fila para pedir um corte de cabelo igual ao seu. Por cá, um dia que a extrema esquerda chegue ao poder em Portugal, vamos ter a miudagem a pedir o corte à Garcia Pereira, em vez de Cristiano Ronaldo, o que me parece um salto civilizacional importante.

 

No entanto, no que toca ao look, acho que é melhor Kim Jong-Un começar a dar umas corridinhas, pois é obeso e tem vários problemas de saúde relacionados, o que é apesar de tudo é estranho pois esta morsa tem umas bochechas a fazer lembrar alguém doidinho por brócolos e pescada cozida.

 

Ainda assim, a carreira profissional de ditador já não tem o encanto de outros tempos, que o digam Saddam ou Kadhafi. Costumava dar direito a umas regalias porreiras e uma reforma jeitosa, mas nos últimos tempos as coisas mudaram um bocado: à conta do falecido líder líbio usa-se muito agora a sodomização com um pau e execução na praça pública, em vez das festas em Saint-tropez. Parecendo que não, já não é a mesma coisa.