Caio, logo existo.

Caio, logo existo.

Até há uns quinze dias atrás, eu só conhecia três austríacos. Um psiquiatra que via perturbações sexuais num bife com batatas fritas, outro rapazola que tinha como hobby procriar com a própria filha e, finalmente, um sujeito de bigode castiço que sonhava dominar o mundo e povoá-lo com rapazinhos loiros de rabo firme. Posto isto, quando ouvi falar de um austríaco a olhar para a Terra lá de cima em modo Google Earth, fiquei naturalmente à espera de notícias sobre a invasão da Polónia. Mas não, afinal o alarido era todo à conta de um tralho. Simplesmente um  tralho.

Devo dizer que não fiquei muito impressionado com o feito de Felix Baumgartner. Não desfazendo, o senhor…caiu. Se vir alguém a cair na rua, naturalmente aponto na direcção da pessoa e começo a gozar, como é expectável. Se for um velhote posso eventualmente ir ter com ele e improvisar algumas piadas sobre osteoporose, mas acabo por ficar por ali. É giro, mas é simplesmente um tralho, não é nada do outro mundo.

Passei toda a vida a cair, mas estranhamente isso nunca me trouxe particular fama ou glória. Desde pequeno que fui investido no meu antigo bairro com o cognome de “Trambolho”, substantivo que retratava a minha apetência pelo contacto com o chão, fruto de uma técnica de drible pouco ortodoxa que acabava frequentemente no alisamento do alcatrão com as rótulas.  Se falo de tralhos, faço-o com conhecimento de causa.

Tinha alguns receios em relação à iniciativa, não particularmente pela hipótese de o senhor se transformar num tapete caro, mas sim pela possibilidade de aparecerem na cápsula as meninas do “Fama Show” com as perguntas parvas do costume. Isso sim, seria uma tragédia. Uma grande desilusão, a nível da componente artística, estava à espera que ele fizesse o Gangnam Style. Mas nada, nem sequer aquela do abanar a anca no elevador.

Acima de tudo, acho que o salto valeu a pena pelas belas imagens, do contorno dos continentes e dos participantes no “Toca a mexer”. Aos 40 quilómetros de altitude entramos já no mundo maravilhoso do espaço, a Última Fronteira, onde rareia o oxigénio e o número de pessoas que já namoraram com Marta Leite Castro.

Tanta coisa porque chegou a Mach 1, a velocidade do som. Ora, eu lido diariamente com uma Mach 3 e faço-o em pelota, à homem, e não com um fatinho amaricado de marinheiro espacial. De cada vez que me atiro a ela perco duas postas de cara e sangue que dava para fazer uma dúzia de chouriças.

Escrevo estas linhas no meu iPad, linha de Sintra, às nove da noite. Queres tentar o mesmo, ou preferes voltar a andar no escorrega espacial? Cá te espero, seu menino.