Enfermidade Interracial Respeitadora da Diversidade

Sou um grande fã daIdade Média.  Logo  para começar ,“Idade das Trevas” é simplesmente o nome de período histórico com mais pinta. A Idade Média tem má reputação, o que é uma grande injustiça. Desde logo veio pôr um ponto final em mariquices típicas dos clássicos, como o culto do intelecto e longos passeios à beira-mar na companhia de rapazinhos. Mesmo muito longos. Na Idade Média não havia cá nada dessas coisas, as preliminares consistiam em dizer “Ó donzela, cá vai disto” e estava feito. A promiscuidade era extrema, mais um ponto a favor.

 

Os tempos medievos deram-nos muitas coisas boas, como por exemplo Manoel de Oliveira. Podem igualmente orgulhar-se do nome de doença mais fixe: “Peste Negra”. Hoje em dia seria impossível termos qualquer coisa com tanto estilo, à conta  do discurso inclusivo: teria de ser uma seca como “Maleita Arco Íris” ou “Enfermidade Interracial Respeitadora da Diversidade”.

 

Pouca gente sabe, mas as Cruzadas dos cavaleiros cristãos deram o nome a um passatempo com que estes ocupavam os tempos livres em campanha. Era frequente ouvir conversas à volta da lareira como “ – Epá, ó Zé, “Sarraceno Infiel Escumalha da Terra e Filho do Diabo”, com cinco letras começada por M”. Este hobby era rivalizado em popularidade apenas pelo “Jogo da Forca”, que consistia em aplicar uma écharpe de corda ao pescoço de um aldeão, só pelo gozo. E assim se passava o tempo, sempre era melhor que ouvir a flauta do menestrel em loop durante várias horas. Ainda em relação às expedições à Terra Santa, um mito medieval herdado do mundo islâmico: “Sinbad, o Marinheiro” e as “Mil e Uma Noites” não tinham a ver com contos orais, eram sim o nome das primeiras casas de alterne travesti, frequentadas pelos Cruzados no Próximo Oriente.

 

Quanto à higiene pessoal, mais uma vez, a Idade Média pode orgulhar-se da nomenclatura mais fixe: “esterqueira”. A casa de banho caiu em desuso na Idade Média, as pessoas limitavam-se a responder ao chamamento do corpo em depósitos ao ar livre, em verdadeira comunhão com a Natureza. “Esterqueira”  é muito mais interessante que “casa de banho”.  Aliás “casa de banho” era difícil, pois nessa altura o banho era considerado prejudicial à saúde e inclusivé proibido em muitas cidades, quanto muito lavava-se a cara e pouco mais. Os banhos eram tão populares como o cavaleiro Marcelo Mendes num congresso da Associação Animal. Os membros do clero optavam deliberadamente pela imundície, como forma de mostrar que não ligavam nada ao corpo, dedicando-se integralmente à vida espiritual. É desta altura que veio a expressão “vou-me só lavar por baixo”, sendo que ainda hoje milhares de portugueses seguem à risca esta tradição medieval, como é fácil de constatar no metro em hora de ponta. Quanto à saúde oral, lavavam-se os dentes com urina e recorria-se ao fio dental.  No fundo era tudo preocupação com a ecologia e com um modelo de desenvolvimento sustentável, exemplos “verdes” que devíamos seguir.

 

Em Portugal gostamos muito de feiras medievais, é um assunto levado a sério.  A título de exemplo, na de Óbidos até têm prostitutas desdentadas com sífilis, tudo para recriar fielmente o espírito da época. Só acho arriscado aquela cena da malta que insiste em levar de casa a sua própria cota de malha, pois o brilho da couraça produz o mesmo efeito numa mulher que um espantalho numa seara. Mas enfim, não se pode ter tudo.