Fashion victim

Conheço muito bem o verdadeiro significado da expressão fashion victim, visto que  ainda hoje sou gozado à conta de uma foto de infância em que apareço de meias altas de renda branca, jardineira vermelha e um chapéu à cowboy. Uma cena um bocado kinky.

Há alguns momentos particularmente marcantes na vida de um homem. Um dos mais traumáticos e paradoxalmente libertadores consiste na descoberta do conceito de “combinar roupa”.  Numa verdadeira epifania, daquelas com direito a clarão luminoso e sarça ardente, é revelado ao jovem que não deve andar na rua de sapato e meia branca e que são de evitar grandes amizades  entre o verde e o roxo.

No caso desta alminha que vos escreve, a Boa Nova chegou dramaticamente tarde, não obstante os sábios alertas do irmão. Para mim, que percebia tanto de têxtil como de física quântica, o meu irmão representava uma mistura entre o Oráculo de Delfos e o Farol de Alexandria. Pior do que o puro desconhecimento em relação a esse mundo de enigmas e mistério, eu cometia o crime capital de não estar minimamente ralado com isso.

No entanto, décadas antes de sequer sonhar que uma loja de roupa poderia aspirar  ao glamour de uma C&A, fui desde tenra idade peregrino do santuário de Fátima do prêt-a-porter, Meca dos atoalhados  e  Jerusalém dos jogos de cama.  Senhoras e senhores, aqui fica a minha singela homenagem a esse mito vivo do têxtil em Mem Martins: “São&Costa”.

Tal como a aldeia gaulesa no meio dos acampamentos romanos, “São&Costa” continua, ainda hoje, teimosamente a resistir ao invasor. Mais do que um simples estabelecimento comercial, “S&C” é um estado de espírito, o retrato vivo de um Portugal que considera Toy um pedação de mau caminho. Mas passemos ao fulcro da questão, que é como quem diz, as romarias dos irmãos Silva e sua santa mãe (D. São) a essa paragem obrigatória quando era para comprar uma “coisa boa”, sempre sob a supervisão atenta da dona da loja, a homónima Dona São. Ou mais concretamente “Dona Xão”, posto que a senhora fala “axim”.

Estamos pois nas entranhas dos anos 80, conhecidos para a História como a Idade Média do vestuário. Para estes dois cachopos, naquela altura era o poder paternal que decidia de forma totalmente soberana o que ficava, ou não, bem. E calou. Sucede que a dona da loja sofria de uma espécie de reflexo condicionado, isto é, sempre que eu ou o outro pouco afortunado irmão experimentássemos um trapito qualquer, fosse ele qual fosse, a senhora sacava invariavelmente um  convicto -”Ai, Dona Xão, ichto beste tõe bem no xeu menino!!”

Para aquela senhora, tanto fazia que se tratasse de uma camisa ou um par de cuecas, qualquer farrapo ficava a matar aquelas martirizadas crianças.  O uso da palavra “mártir” não é despiciendo, pois à conta disso já temos garantidas as tais 70 virgens no Paraíso, e todas vestidinhas com tailleur Armani.  Enquanto decorria o ritual da marcação das baínhas, a petizada admirava com o olhar encantado da infância as infindáveis galerias de camisas com estampados verde/amarelo, calças bordeaux e roupa interior para senhora que a Rainha Victoria teria considerado fora de moda.

O meu irmão tinha muito mais apuro estético e lá ia torcendo o nariz e batendo o pé em protesto o quanto podia, porém, já se sabe, a minha mãe  tinha nas mãos mais poder que o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Que bonita roupa, pensava eu na minha doce ingenuidade. No entanto  sempre achei profundamente perturbadoras  as embalagens de cueca para homem, em que aparece a foto de um marmanjão em tronco nu a estimular os mamilos.

Os “Armazéns Gatuxa” – referência incontornável para os apreciadores de fatos de treino púrpura acetinado e outros artigos de especialidade-  fecharam portas há muito pouco tempo, consequência da globalização e de um traiçoeiro surto de bom gosto que vitimou a clientela. Eterna saudade.