Midlife crisis

Midlife crisis

 

Um homem acorda um dia e acha que deve dar uma volta à vida, começando por reciclar a velharia que tem lá em casa e adquirir uma gaiata da idade da filha, convertendo a poupança-reforma num descapotável vermelho enquanto o diabo escreve um cheque. Vulgarmente conhecido por “Crise de Meia Idade”, os especialistas têm um termo técnico para designar este fenómeno: “Síndrome Camilo de Oliveira e também daquele cinquentão que faz teatro de revista e se amigou com uma catraia de 19 anos, não é nada parvo, o gajo”. No entanto esta nomenclatura não é consensual, pois para algumas escolas de pensamento, Camilo claramente já passou inclusive a “Crise dos 4/5”.

De acordo com os dados disponíveis, o indivíduo no Império Romano teria uma esperança média de vida de cerca de 30 anos, pelo que teria a sua crise de meia idade por volta dos  15. Hoje é estranho ouvir falar de crise de meia idade numa fase da vida em que o buço ainda dá as primeiras pinceladas numa fronha martirizada pela acne. No entanto a fronteira etária vai evoluindo com o tempo, pelo que daqui a umas décadas, quando andar lá pelos 60, vamos ter a velhada a fazer tuning a andarilhos em vez de Porsches.

Temos então uma súbita atracção por carros desportivos e mulheres na casa dos vinte. Até aqui, obviamente, nada de errado, muito pelo contrário. Mas então porque é que algumas pessoas chamam “crise” a esta fase da vida que aparentemente só revela lucidez e bom gosto? Muito simples, a culpa é toda das motas. Por volta dos 50, mais coisa menos coisa, dispara uma mola no cérebro masculino que leva o indivíduo a pensar “Epá, o que me ficava mesmo a matar era um lencinho e um colete de cabedal com estampados garridos, talvez uma caveira com uns apliques em vermelho.” E pronto, lá vai o “Avô Cantigas” todo contente a caminho dos prados verdejantes onde pastam as Harley. E é aqui que reside o problema, nem toda a gente fica favorecida de cabedal justo.

Tal como acontece com o tabaco nos cafés, a venda de fatos de cabedal devia ser muito restringida quando se trata de indivíduos com mais de 50 anos, principalmente se flagelados pela obesidade. Estes recém-promovidos reis do asfalto transformam o depósito da mota numa espécie de sofá para a barriga. Sofá com chaise longue. Já agora, em relação aos cafés e ao drama da obesidade, acho que as sandes de leitão também deviam estar dentro de uma maquineta como a do tabaco, sendo desbloqueado o acesso apenas pelo funcionário do estabelecimento. Fica a proposta.