Queres fazer perna comigo?

Queres fazer perna comigo?

 

Cinco e quarenta e cinco da manhã. Ainda não mudou a hora e está escuro como breu. A passo ligeiro para não acordar o galo da capoeira da vivenda da frente, o jovem André pega na saca e põe-se a caminho da estação dos comboios. Lá dentro leva uma trouxa de roupa, mantimentos e um monte de tralha que dava para equipar a preceito um acampamento cigano. Vai emigrar? Não, vai ao ginásio.   Foi fugaz a minha passagem pelo mundo da musculação , duas ou três sessões a dar no ferro levantando cargas que pareceriam ridículas até para Madre Teresa de Calcutá. O arranque já não fora muito promissor, mas o golpe de misericórdia surgiu no momento em que ouvi um macacão perguntar a outro “Queres fazer perna comigo?”, com um olhar que, não querendo mentir, tinha qualquer coisa de luxúria. Um piquinho dela. Percebi que era a altura de içar as velas e levantar âncora, preferencialmente para bem longe daquela marujada. No entanto ficou o trauma do episódio e apenas passados um ano e seis ordenados em terapia lá resolvi arriscar e voltar a sério ao ginásio. E desta vez, à bruta.   Aparentemente, e obedecendo a critérios meramente racionais, algo está profundamente errado na vida de um homem que se dispõe voluntariamente alombar com um contentor de ferro e plástico, a horas pouco dignas sequer para o pequeno almoço.

 

 

Na verdade, e contra todas as expectativas, tornei-me um rato de ginásio.  Bolas de espelhos, música aos berros, entertainers loucos, assistência histérica. As aulas de fitness fazem lembrar a delegação da IURD em Ibiza. E o mais grave é que me converti à seita.

 

 

A primeira e mais relevante informação a reter é que fazer body pump é coisa de homem. A explicação parece-me óbvia: é coisa de homem porque é o que eu faço. Quanto a outras variantes, tenho muitas reservas sobre o seu índice de virilidade. Por exemplo, um homem não dança em cima de um step. Não. Não. A sério, não. O que diriam os nossos antepassados, habituados a caçar mamutes e a jogar às escondidas com tigres dentes de sabre, se soubessem que mantemos a forma a abanar o rabo em cima de um banco de plástico ao som da Lady Gaga. Um homem não pode transformar-se numa reles corista do fitness. Não pode.

 

 

No que se apresenta como um claro atentado ao senso comum, nem todos os artifícios são válidos para meter conversa com mulheres. Refiro-me, naturalmente, à frequência de aulas de body combat, que está absolutamente vedada ao sexo masculino. Já é suficientemente errado que um tipo saiba o que é, quanto mais praticá-lo. O body combat é possivelmente a invenção mais parva desde a “mosca para sopas” ou as couvettes especialmente adaptadas para conservar cotão. Gritinhos e socos no ar a um inimigo imaginário com serpentinas nas mãos não constitui decididamente o pináculo da masculinidade, ainda por cima com camuflados e manga cava. Percebo que há gostos para tudo, como a malta que acha graça a barrar cera quente nos mamilos como se fosse Tulicreme, mas isto não me cabe na cabeça.

 

 

 

A experimentação é tolerável, mas o essencial é não repetir o erro. Dramaticamente resolvi arriscar uma aula frequentada apenas por mulheres. Quando a meio ouvi berrar “Meninas, vamos lá levantar essa perna!!!! E é se querem caber nas calças da Salsa!!!” percebi que era hora de me levantar, pegar na pouchette e sair pela porta dos fundos.   Por esta ordem, há três tipos de pessoas que me assustam: as que não pestanejam, as que correm atrás de mim com um cutelo do talho e as que estão sempre a sorrir, como é o caso dos instrutores de fitness.

 

Trata-se de criaturas que fariam corar de vergonha mesmo os inquisidores mais ruinzinhos, recorrendo a dispositivos medonhos como o TRX para provocar dor e sofrimento e, claro está, com um sorriso na cara. E o pior é que esperam que um tipo faça o mesmo enquanto está a suar que nem um porco, é o equivalente a mandar o paciente assobiar durante uma colonoscopia. Assobiar e bater palmas.“Onde é que pensam que vão?? Não é por acelerarem que isto acaba mais depressa!!”, às vezes tenho dúvidas se me estão a violar ou a mandar fazer abdominais.  Ou melhor, até sei, mas prefiro fingir que não.