Take my breath away…

Take my breath away…

Tal como acontece com as produções caseiras de Tomás Taveira, tenho para mim que não existe o conceito de ver demasiadas vezes o “Top Gun”. Como eu admirava “Maverick”, a personagem interpretada por Tom Cruise, um rebelde sem causa nem capacete, sempre pronto a despedaçar corações e as mais elementares regras de segurança rodoviária. Era o arquétipo do “militar bad boy que come as gajas que quer”, um modelo de vida que o jovem André aspirava um dia poder replicar, décadas antes de o actor se tornar conhecido pelas igrejas esquisitas e ter oferta de conta vitalícia pelo site de encontros gay “Manhunt”. Enfim, tempos que já lá vão.

“Na tropa é que se fazem homens.” À primeira vista esta expressão pode causar alguma perplexidade, pois não é óbvia a ideia de um meio tipicamente masculino como particularmente favorável à reprodução, não obstante a convivência em espaços fechados e os notáveis avanços na medicina nesta área. Mas a questão coloca-se num patamar filosófico, e não literal. A verdade é que o facto de não ter ido à tropa gerou em mim profundas angústias existenciais. Na prática sinto que não tive direito a um ritual de passagem que seria o passaporte para a masculinidade plena. Já não bastava ter caído em desuso a bonita tradição de o próprio pai levar o filho às meninas para uma primeira interacção carnal, agora um tipo havia perdido igualmente o direito a fazer-se um homenzinho através do expediente do “Serviço Militar Obrigatório”.

Eu sempre gostei da ideia da tropa, e tenho todo um arrazoado de bonecada bélica para o provar lá por casa, para profundo desgosto dos meus pais. Foi então com grande entusiasmo que numa bela manhã de sol fui à “Inspecção” na Calçada da Ajuda, o meu primeiro contacto ao vivo e a cores com o mundo das Forças Armadas. Foram apenas quatro horas, mas estabeleci elos de amizade profunda com os meus camaradas de armas, embora lamentavelmente não tenhamos chegado a trocar contactos para combinar o famoso “almoço da tropa”. Lamentável.

Como milhares de outros jovens fustigados pela acne por esse país fora, por decreto administrativo passou uma molhada de gente à chamada “Reserva Territorial”, numa altura em que o conceito do SMO estava quase a bater as botas. Ao contrário do que acontece com o vinho, neste caso rótulo de “Reserva” não sugere um produto de qualidade. Em caso de conflito bélico, esta reserva é enviada para a frente de batalha, por forma a desempenhar a importante função de depósito de chumbo do inimigo, isto enquanto os meninos crescidos se preparam a sério para andar à porrada.

Mas eu queria ir. Apesar da minha vontade férrea de servir a Pátria, foi com grande tristeza que descobri que na tropa afinal não queriam gajos míopes, com pé chato e bronquite asmática, como era o meu caso. Aparentemente eu estaria apto, não para os Rangers ou Fuzileiros, mas sim para integrar o contingente menos elitista das Forças com Necessidades Especiais. Nunca lhes perdoarei. Os espartanos lixaram-se nas Termópilas à conta de um corcunda a quem negaram a possibilidade de exercer os seus préstimos, pior que o gordo que ainda assim vai à baliza. Neste caso, nem isso. Espero que um dia as Forças Armadas não chorem de arrependimento por me terem dado com os pés. Não, depois não venham dizer que me amam e me querem de volta, porque será demasiado tarde.

 

Descobri há meses uma forma de lidar com esta dor lancinante: o “Bootcamp”. To be continued.